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Filolítica#4: o Amor na História ocidental. - Um resgate de Platão.

Atualizado: 24 de jul. de 2020

A socidade ocidental construiu sua heteronormatividade em cima da homoafetividade masculina. E isso explica a objetificação feminina em sua origem após a consolidação do capitalismo e sua sanha em transfomar tudo em mercadoria, inclusive os corpos femininos.




Ao discutir o amor, Platão estava inserido em uma cultura que, hoje percebemos, como patriarcal e aristocrática. E, sem dúvida, isso moldou sua visão de mundo que tem ecos até hoje.



A Construção do Ideário do Amor no Ocidente.


O Amor Platônico não é uma idealização romântica como se passou a enxergar após a Modernidade. Essencialmente, ele constitui-se como o encontro entre dois seres que se complementam, após a divisão da alma em duas partes no mundo inteligível. O amor só acontece entre iguais. E o igual de um homem é outro homem.

É bastante comum escutarmos, em rodas de conversas de homens hetéros, o quanto estes gostam de mulher. São "viciados" nelas. Só "pensam" nelas. Vivem na "caça" de novas mulheres de tanto que as veneram e adoram. Bom, não é bem assim. O paradoxo é que essas falas, normalmente, são dadas entre grupos de amigos com, apenas, vejamos, outros homens com quem estes homens héteros relacionam-se. E isso revela um acontecimento importante. Apesar de " gostarem de mulher" é comum também escutarmos de homens hetéros que se sentem mais confortáveis com a "sua turma de homens". Aquela "cerveja", aquele "papo", fluem melhor entre homens. Observem o padrão interessante no hetéro masculino de buscar sempre ter um assunto, de futebol à política, que possa ser cultuado apenas entre o masculino. Inclisive, o futebol por anos funcionou dessa maneira. O esporte foi construído como uma seita, aonde as mulheres não deveriam aventurarem-se a participar. Aquilo era do universo masculino. Interessante que quando as mulheres ocupam espaços que historicamente foram construídos para serem templos sagrados masculinos, logo os homens encontram novos templos de santificação. Se as mulheres já dialogam de "igual para igual" sobre o futebol quem sabe agora vamos falar, tomando nossa cerveja, sobre, sei lá, futebol americano. Dessa forma, nosso templo sagrado masculino fica preservado.


Essa análise que faço aqui não objetiva uma crítica, em si, ao comportamento masculino, mas sim uma reflexão de como este comportamento construiu-se historicamente. Quebrá-lo não é simples e exige uma desconstrução que a informação e o saber podem nos ajudar a realizar.


A primeira coisa que precisamos entender é que homens no ocidente aprendem a amar outros homens e não mulheres. Todos nós sem exceção, mulheres e homens, somos criados para valorização do masculino do ponto de vista social. Isso remete a formação ocidental na Grécia, mais especificamente da filosofia grega, em Platão.


O Amor Platônico surge a partir da tentativa do filósofo grego explicar a conectude que algumas "almas" afins possuem de maneira a prióri. O amor verdadeiro para Platão revela uma profunda conexão entre dois seres que, ultrapassando os limites do corpo físico, completam-se no nível intelectual, origem e verdade de tudo que existe.


A questão é que em uma cultura patriarcal, a aristocracia grega, e até mesmo o próprio Platão, compreendeu que esse amor entre iguais só encontra eco pleno no masculino. Estes, como seres que se dedicam a intelectualidade, possuem relações amorosas de complementação. De alguma maneira, uma relação amorosa entre homem e mulher é desigual. Por mais que a necessidade física possa ser atendida nessa relação, a completude definitiva, em amor, do masculino será sempre a de outro masculino. Na Grécia, essa é a relação que Platão construiu, primeiramente, com Sócrates e, depois, com Aristóteles. A Filosofia seria a grande porta de entrada para uma verdadeira relação amorosa e não apenas sexual. Como as mulheres não "alcançavam" o saber filosófico, que era também o saber público, a relação dos homens com estas eram apenas sexuais e naturais: a possibilidade de fins reprodutivos.


O sexo entre masculinos era algo comum na Grécia, apesar de ser anacrônico chamar a prática de homossexualidade como a entendemos hoje. Essa divisão entre homo e heterosseualidade só faz sentido no mundo moderno. O conceito de heterossexualidade em si só faz sentido em uma cultura que defende a monogamia e isso não faz muito sentido na cultura grega da Antiguidade.


A ideia de amor apenas entre seres masculinos sofreu uma mudança na Idade Média. A relação sexual entre homens foi considerada pecaminosa e a relação heterossexual, por meio da monogamia, a única capaz de purgar o ser pelo pecado de cometer o ato sexual. Ali, na relação matrimonial, o masculino teria a função reprodutiva que garante sua santidade.


Mas uma imposição de sexualidade de fora para dentro não modifica a cultura em si, mas apenas a parte que ela interferiu diretamente. Dessa maneira, criamos no ocidente uma cultura interessante. Uma cultura que homens continuaram amando outros homens, mas impedidos de completar esse amor no ato sexual.


Isso perdura na Modernidade e até na Contemporaneidade. O masculino tem a ânsia do amor masculino, castrada em linguagem freudiana, pelo super ego moral que entende aquela relação como equivocada.


A questão é que o desejo do masculino sobre outros masculinos continua vazando nas relações sociais atualmente. Não como sexo, muitas vezes, mas como pulsão. E, voltando, o futebol é maior intrumento disso. Por isso incomoda tanto a homens à presença de mulheres nesse templo sagrado, mesmo que inconsciente. Na hora do gol é a hora que nossa sociedade , e nosso inconsciente , permite que homens toquem em homens. Que homens expressem sua homoafetivade. É aquele momento que você pode dar um abraço, talvez até um beijo, em seu amigo na cadeira ao lado, sem que se sinta em erro culposo. É a hora de expressar sua homoafetividade sem culpa. E, de repente, tá lá... "Lá vem as mulheres, com seu feminismo, quererem se meter nisso!"


E é nesse cenário ocidental que o feminino busca alcançar o seu espaço social negado historicamente como uma espaço de possibilidade de afeição por parte do masculino. O feminino busca que o reconhecimento masculino, e da sociedade patriarcal, seja não só do seu corpo como objeto de desejo sexual. Mas que, para além desse desejo dominante, platonicamente, o homem deseje mulheres. Deseje por perto. Deseje na roda de conversas, Deseje no futebol. Deseje nos assuntos de economia e política. Não por que a mulher dependa dessa validação para ocupar estes espaços, inclusive por que os últimos cem anos demonstram que , pelo contrário, não precisam. Mas por saberem que essa mudança cultural de percepção auxiliará na libertação do feminino desta e das próximas gerações.


O homem heterossexual, bem como o homossexual, já é homoafetivo historicamente. O sonho progressista é que ele passe, também,a ser heteroafetivo. Seria uma libertação não só para o feminino, mas também para o masculino que dicotomiza, inclusive em gênero, amor e sexualidade desde a Grécia Antiga.



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