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Filonema#3: Dark - em Poucos Versos.

Dark, a obra narrativamente mais desafiadora da recente trajetória da Netflix, fecha sua sua história deixando uma narrativa explicita e fechada para satisfação de quem acompanhou a jornada até aqui e uma outra história, metafórica, aberta para a discussão e reiterpretações.




Ao final da 2ª temporada de Dark argumentei que se conseguissem fechar a obra que estava vendo de maneira coerente, estaríamos diante de uma caso espetacular de montagem,de roteiro e de decupagem de direção. Bem, aconteceu!


A Camada Religiosa de Dark.

As referências religiosas da série são fundamentais para que seu possa ter uma conclusão satisfatória do final de Dark. Mas não àquelas, apenas, dos nomes bíblicos explícitos e dos quadros renascentistas desenhados, mas, sim da história bíblica, oficial e apócrifa, que é tecida ao nosso olhar por meio dos personagens da série.

Na primeira e segunda temporada de Dark somos apresentados a dois seres antagônicos que disputam o controle sobre as viagens no tempo: Jonas e Claúdia. Jonas com nome bíblico referendado, de fácil reconhecimento como o grande viajante da "baleia" no texto religioso, enquanto Cláudia é um nome que não apresenta significado de destaque bíblico, alguém que não aparece nessa história oficial, mas que significa etimologicamdente "coxa, ou manca" em uma intepretação mais literal ou "aquela que dá apoio" em uma hemeneutica mais aprofundada . Os dois sentidos valem aqui para a personagem. A questão é que Jonas, a medida que envelhece, assume seu alter ego como parte de sua persona, Adam, enquanto Claúdia continua despercebida, escondida, sem assumir seu alter ego de viajante no tempo. Apenas seu pai, quando morto por ela, entende realmente qual persona daquela viajante: O Diabo Branco.


O Diabo Branco está presente nas tradições apócrifas bíblicas. Escondida deste o Paraíso, manipulando as situações ao seu interesse. Mas esta história, tanto na Bíblia quanto na série, não é a história contata em primeiro plano. O pensamento cristão é dicotômico e sempre pensamos que no paraíso só existiam dois seres: Adão e Eva. Mas lá ni texto biblico oficial sempre teve um terceiro, que sempre negamos a enxergar: A Serpente. O animal que incentiva Adão a pecar, e Eva a comer a maçã,sempre fez parte do jogo divino, mesmo que nossa mente não queira que ele faça parte para preservar nosso pensamento dicotômico que nos concede segurança. Nas histórias apócrifas, a Serpente tem nome: Lilith. A mulher empoderada, que recusa a submissão à Adão e cria sua própria história. Que aprendemos a ver como um ser negativo por séculos de tradições patriarcais aonde Eva é a mulher de respeito e Lilith tão perigosa que precisou ser ocultada das narrativas bíblicas oficiais. Lilith é o Diabo que não vive na Terra, mas sim no Paraíso. Que conhece a origem por estar lá. O Diabo Branco em contraponto a Lucifer, o Diabo negro, este sim presente na Bílblia oficial desde a Vulgata. Cláudia não assume seu alter ego e como sua personagem sempre passou despercebida na história dicotômica oficial bíblica. Claúdia é Lilith na tríade do Paraíso que gostaríamos que não existisse no dualismo. O sonho deturpado do Cristianismo de enxergamos a completude de Adão e Eva, mesmo com a mensagem cristã ressaltando a perfeição na Trindade.




A) A Primeira Mulher de Adão


A primeira mulher que Adão teve contato, nas versões bíblicas apócrifas, também foi sua primeira inimiga. Recusando-se a subjugação, inclusive sexual, Lilith se vê, no mínimo, como igual a Adão. Ela resolve então criar sua própria indepedência assumindo -se como rival daquele homem e manipulando o Paraíso para que seus desejos ocorram.


Claúdia claramente representa Lilith em Dark. Em nenhum momento mostra ter problemas com sua sexualidade, sempre assumida. Pede a Tronte, ainda como criança para ver seus orgãos sexuais, cometendo ainda na pureza, seu primeiro "pecado", Deita -se ainda na puberdade com o mesmo Tronte e usa em sua fase adulta da sexualidade como instrumento de poder ao se relacionar com Bern Doppler e com isso assumir a Usina. Não é a mãe projetada na figura de Maria, para Regina. Não é doce, cuidadosa, acolhedora como o imáginário cristão sobre o feminino espera-se da mulher que ousou cometer o pecado sexual e engravidar. Claúdia não se pune em sua vontades e desejos por ser mãe. E isso não a torna uma má mãe. Toda a trajetória de libertação do feminino da personagem é pra salvar Regina, sua filha . É amor puro. Fora do dualismo cristão e da posição subalterna que o feminino precisa se colocar no amor entre Adão e Eva em que esta última vem da costela do primeiro.




B) A Segunda Mulher de Adão


Na tradição apócrifa bíblica só depois de ter que lidar com essa mulher que se recusa a lidar com a subserviência é que Adão conhece o seu outro oposto feminino: Eva. Em Dark também funciona assim. Após acompanharmos duas temporadas de disputa entre Jonas e Claúdia, Adam e Lilith, na terceira temporada, Adam conhece seu amor complemento, Eva. Ligados pela lógica do símbolo do infinito, Adam e Eva, são duas faces da mesma moeda, feitos do mesmo corpo ( costela de Adão) que não resistem a se complementarem, mesmo com todos os sinais do Paraíso que suas vidas não deveriam se tocar dessa maneira. A questão é que eles nunca tiveram sozinhos alí. A dualidade e o complemento é ilusório. E a serpente, outro ser formador do Paraíso, é quem percebe isso.


Eva, após o pecado, constroi-se como um ser indepedente de Adão e quer sua existência garantida. Adão não resiste a essa completude, mas ao pecar com Eva logo se arrepende e quer destruir aquilo que criaram: sua relação que rompeu com a harmonia do paraíso fazendo os dois decaírem.


Na série o pecado do sexo entre Adam e Eva geram um filho decaído que não foi projetado pelo Absoluto Divino. Lúcifer, outro que aparece sem o nome na série,´mas com a marca de aberração no lábio deformado, vive em uma tríade falsa ( Jovem, Velho, Adulto) garantindo que os mundos falsos existam, garantindo assim, também, a existência da Mãe-Eva. Enquanto isso, seu pai, Adam, quer retonar ao Paraíso deixando de existir , destruindo a mulher que lhe causou o mal e seu filho monstro do pecado de sua rebelia com Deus. O Paraíso é a escuridão da inexistência como sempre quis Adam velho quando entende que não pode mudar aquilo que ocorreu recriando o tempo.



C) A INTEPRETAÇÃO PROTESTANTE DO TEMPO


Toda a Lógica que o tempo é o grande vilão em Dark é inspirado na leitura agostiniana sobre o tema, dentro do aspecto da Reforma Prostestante que resgatou o assunto na Modernidade. Se a série tivesse uma personagem chamada Lutero ou Calvino isso ficaria claro para o público de maneira mais compreensível, mas ao colocar esta visão em Ulrich, muita gente não pega esta referência.


Ulrich Zuínglio foi o líder da reforma protestante na suíça e fundador das igrejas reformadas desse país. Ulrich chegou a conclusões semelhantes de Lutero e Calvino sobre o problema da Escolástica, período final do catolicismo medieval, de colocar o tempo como algo divino, e que portanto não podia ser cobrado ( Lembra que a Igreja Católica condenava a usura - empréstimos a juros nesta época -) por ser de Deus.


Resgatando a concepção agostiniana, Ulrich pensa o tempo como algo não vindo de Deus, mas da perdição do homem. Sair do tempo é para agostinho a forma de sair do mundo relativo- falso e ser salvo para a dimensão eterna, aonde Deus habita fora do tempo. Esta é a Graça da Salvação que os protestantes recuperam de Agostinho.


Na visão do medievalista e sua filosofia do tempo recuperada pelos protestantes modernos, como Ulrich, Calvino e Lutero, o tempo é uma criação ilusória do Demiurgo, do Demônio. de Lúcifer, do Homem Monstro de Lábio ferido que deu origem a tudo na série, pra nos afastar de Deus ( a Origem). Encontrar a Salvação seria destruir o tempo e com isso toda a dimensão relativa criada pelo demiurgo como um nó, com um fio de Ariadne para nos aprisionar a uma realidade ilusória. Não é à toa que a empoderada Lilith é a primeira a perceber isso. Que só quebrando o tempo pode-se voltar para a realidade original, aquela divina, aquela não contaminada pelo pecado de Adão e Eva, aonde os dignos que não se amarraram no nó podem viver pela graça da Salvação: Hanna, Catarina, Voller e sua irmã, Dopller e Regina não comeram da maça proíbida em si de relacionar-se com o demiurgo do tempo: o homem com a lábio ferido.


Eles estão prontos para a Graça. Lilith sabe que se banhou na manipulação do tempo. Claúdia sabe que a salvação, o amor de mãe verdadeiro, é pra sua filha não pra ela. O sacríficio do feminino para o feminino a apaga e não a exalta como a mãe doce que sempre cuidou das filhas. Essa imagem egoica do feminino não conduz a salvação verdadeira pra ela.



Jonas e Martha, cada um no seu mundo, predominantemente de Amarelo, destacam a ingenuidade e esperança de poder através da mudança do tempo salvarem -se a si mesmo ou a sua completude entendendo amor como salvar sua realidade espelhada, sua metade da laranja, em visão dicotomica e egóica da realidade. Lilith entende que o amor não é complemento. Em vermelho vívído, predominantemente na série, mostra que o amor vívido é de entender o outro, no caso sua filha, não como um ser complementar de si mesmo ou dependente, mas, sim um ser autonômo. Martha e Jonas na sua esperança pura e ingenua são dependentes um do outro. Não são livres. São tão presos nos seus desejos como elucida Schopenhauer tanto quanto no nó que criaram em nome do seu amor. A tal ponto de materializar seus desejos como um filho demiurgo que precisa garantir que o tempo e as realidade existam.


A medida que Lilith, Adam e Eva entendem que sua funçaõ é a escuridão (dark) deixarem de existir a visão dos três se abre à realidade. Seus mundos são falsos demiurgos e o amor verdadeiro é de um Pai para um Fillho. O Criador, Tanhaus, que para salvar seu filho Marek, o marcado, em longas madeixas cumpridas cumprindo a imagética de Cristo, retorna a casa do Pai, como um filho pródigo, depois de ser avisados por anjos. Adam e Eva, redimidos, dispostos a quebrar o tempo demiurgo.


A Graça é concedida com o sacríficio dos deuses do Paraíso que, entendendo que ao comerem a maça do conhecimento desorganizaram o mundo, estão prontos para salva-lo.


Imaginem que lindo que seria um mundo aonde Cristo retorna ao Criador sem ser necessário sua morte na ponte, a encruzilhada, cruz, de uma estrada. Que Graça seria se aqueles que, pecando originalmente, pudessem, como uma boa dose de física quântica e de gatos de Schorinder, parassem um tempo por um segundo, criando situações simultâneas de aconteceu-não aconteceu, consertando a culpa pelo pecado original em Sacrifício. Poderíamos escolher a realidade aonde o pecado não é necessário e Jesus, assim, não precisa morrer pra nos redimir. Adão e Eva já teriam feito isso por nós desatando o nó no começo.


Deus , Cristo e Espírito Santo se uniriam em uma origem só. A triqueta se faria sobre o dualismo como Hermesto sonhou em sua interpretação extra oficial da realidade que série insisde desde o início:


Sic mundus Creatus Est. Assim, o mundo se fez.


Com tal graça dos pais simbólicos da humanidade, que carregam consigo a culpa da humanidade, teríamos a redenção. Com uma ajudinha da demonizada Lilith que, com seu feminino assumido, enxergou primeiro o problema.


Que nó desatado na maior história que conhecemos da humanidade.


Ou na maior narrativa minuciosamente construída de uma série de TV.


Em ambos tudo ficaria em paz.


Ou pelo menos até um novo Jonas reiniciar a viagem como sugere o olhar de Hanna Afinal.


Tomara que não pra que fiquemos com o agridoce no final.






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