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Aula Escrita #5: Filosofia Antiga - Parte 4

Revisão de Filosofia em Texto e Imagens!






“Um dia, em meados do Verão do ano de 366 [a. C.], apresentou-se um jovem para se matricular na Academia de Platão. Vinha da cidade macedónia de Estagira, o "Oeste Selvagem" do mundo ateniense. Sem embargo, nada havia de rústico no elegante rapaz. Era a imagem perfeita do requinte, pois fora educado num ambiente de cultura. O pai, já falecido, fora médico na corte de Amintas, rei da Macedónia e avô de Alexandre. Desde a primeira infância, o jovem Aristóteles fora adestrado para uma vida de disciplina mental e conforto físico. A sua chegada à Academia provocou sensação entre os demais estudantes. Porque se tratava dum aristocrata - afável, bizarro, gracioso, de voz branda, delicado, polido, modelo de bom proceder e de elegância no trajar. Falava com um acento afetado, e prestava mais atenção às suas roupas - como se queixava Platão - do que convinha a alguém que amasse sinceramente a sabedoria. Evidenciava, contudo, aptidões intelectuais incrivelmente variadas. Parecia quase impossível um só espírito estar aberto a tantas facetas do conhecimento. Política, drama, poesia, física, medicina, psicologia, história, lógica, astronomia, ética, história natural, matemática, retórica, biologia - eram estes apenas alguns pratos do variadíssimo banquete com o qual procurava o jovem estudante alimentar o seu voraz apetite de saber. Certa vez, Platão observou que a sua Academia se compunha de duas partes - o corpo do seus estudantes e o espírito de Aristóteles. Como era de esperar, o maior mestre e o estudante mais insigne de Atenas não poderiam continuar juntos. Quando um grego se encontra com outro, especialmente num nível de igualdade mental, o choque torna-se iminente. O jovem e o velho filósofo disputavam amiúde, se bem que mutuamente se adorassem.”

Henry Thomas e Dana Lee Thomas. Vidas de Grandes Filósofo. Inspirado nos Relatos de Diógenes Laércio.



1. Aristóteles e a Teoria do Conhecimento.




Ao lado de Platão, Aristóteles foi um dos maiores pensadores da história do ocidente. Aristóteles foi o mais importante discípulo de Platão por ter rivalizado com seu mentor na busca do conhecimento. Apesar de terem o mesmo objetivo, isto é, a busca pela verdade, pela essência, os caminhos que o discípulo utiliza para tal são opostos ao do seu mestre.

Se, para Platão, a verdade é encontrada no mundo inteligível por meio da razão, Aristóteles defenderá que esta verdade está nos próprios seres e é encontrada pela experiência. Ele nega a divisão platônica do mundo em duas realidades, afirmando só haver um mundo, que é este em que vivemos; somente existe o mundo sensível.

Para Aristóteles, seria possível conhecer o mundo por meio da experiência sensorial, apli­cando a razão nos dados fornecidos pelos cinco sentidos. Assim, a partir da realidade empírica, deveríamos buscar as estruturas de cada ser por um processo de pensamento de­nominado indução, segundo o qual, pela obser­vação de elementos particulares, alcançaríamos uma ideia universal ou a essência do objeto, isto é, aquela estrutura presente em todos os seres da mesma categoria.

Ao contrário de Platão, Aristóteles afirma que não há um mundo onde as ideias existam por si mesmas. Para ele, as ideias são o resultado de um processo conduzido pelo intelecto, ou seja, a essência que encontramos são o resultado de nosso pensamento a partir das experiências.

Buscando a essência do homem, Aristóteles conclui que ele é zoon logikon (animal pensante, racional) e zoon politkon (animal político).



2. A Lógica Aristotélica

Preocupado com o conhecimento verdadeiro, Aristóteles se preocupou em responder à questão de como o homem pensa, ou seja, se o conhecimento é fruto do pensamento, tal pensamento deve ser correto, devendo seguir regras que garantam a verdade e a validade.

Como um método é constituído por vários passos, a verdade será fruto destes passos, desde que sejam corretos. Caso ocorra algum erro no percurso do pensamento, a conclusão é necessariamente incorreta.

Dessa forma, Aristóteles dirá que o homem pensa de duas formas:

a) Indução: é o processo de raciocínio pelo qual se experimentam seres particulares para alcançar uma conclusão geral. Para Aristóteles, era necessário experimentar cada ser para encontrar as características comuns a todos eles. Senão dessa maneira é muito comum que o raciocínio indutivo seja equivocado. Um exemplo de raciocínio indutivo que acaba em uma generalização é

Belo Horizonte é uma cidade violenta

Belo Horizonte é uma capital Brasileira

Logo, as capitais brasileiras são violentas.

b) Dedução: o processo de raciocínio acontece a partir unicamente do pensamento. Tem-se uma premissa maior que geral, outra premissa particular ou geral e alcança-se uma conclusão geral ou particular. Um exemplo clássico de um raciocínio dedutivo é

Todo homem é mortal

Sócrates é homem

Logo, Sócrates é mortal

Para o filósofo, a ciência, o conhecimento verdadeiro dos seres, deve preocupa-se com o universal, a categoria, o grupo, e não com o ser individual e concreto. Por exemplo, a ciência não quer saber qual é a essência de um só homem, ou do José, mas sim a essência do homem como um todo, ou seja, o conceito do homem.

Ao alcançar a essência do objeto, sua estrutura essencial, que é universal, torna-se possível aplicar esse conceito aos inúmeros objetos concretos observados na realidade. Por exemplo: ao alcançar a essência do homem como um todo, ao observa-se um homem particular, pode-se identificá-lo como tal, pois já teremos abstraído o conceito de homem.



3. A Metafísica de Aristóteles



Para Aristóteles, o experimentar um ser (algo existente no mundo) , deve-se tentar definir e conhecer:

a) O Ato: é a manifestação atual do ser, o seu agora. O ato é atualização da forma na potência. O ser em definitivo. O ato é oposto à potência, que é o ser na sua capacidade de desenvolver-se.

b) A Potência: significa as possibilidades do ser. Representa as possibilidades que um objeto tem de se transformar em outras coisas.

Exemplos: a semente é a árvore em potência. A árvore é o ato da semente. A matéria madeira é potência, potencialidade, pois pode receber a forma de uma cadeira, de uma mesa, de um objeto artístico etc. O bronze é potência da estátua, porque é efetiva a capacidade de receber e de assumir a forma da estátua.

c) A Substância: o que é essencial do ser. É o conjunto de todas as características comuns e fundamentais em todos os seres, é o que o caracteriza como aquilo que é. A substância do ser é o seu fundamento, sua causa e substrato, aquilo que é imaterial dos seres. O seu conhecimento representa o conhecimento verdadeiro. É a essência necessária que é o verdadeiro objeto do saber, é a verdade do ser.

d) O Acidente: o que é circunstancial do ser. São as características específicas do ser; ou seja, aquelas que não alteram a essência daquilo que um ser ou objeto é.

e) A Matéria: é a matéria indeterminada da qual as coisas são feitas. A matéria contém a potência do ser se transformar em outra coisa. A madeira é a matéria dos móveis de uma casa. Em si, é indeterminada.

f) A Forma: é a maneira com a qual a matéria de cada ser se individualiza. É o que faz com que o ser seja aquilo que ele é, ou seja, é o principio pelo qual uma espécie de seres são o que são. É a própria essência.



4) A teoria das quatro causas:



Também no conhecimento dos seres é necessário definir o que o filósofo denomina de causas de tudo que existe, que são:

a) Causa material: é a matéria de que a coisa é feita. Exemplo: madeira

b) Causa formal: é a configuração, a forma do ser. Está ligada à sua essência. Exemplo: cadeira

c) Causa eficiente: aquele que faz, que produz, imprimindo na matéria a forma. Exemplo: marceneiro.

d) Causa final: é o objetivo pelo qual a coisa é feita. Exemplo: vender um objeto de sentar.

Observações:

I. .De todas as causas, a mais importante é a causa final, uma vez que é a partir dela que os seres são feitos ou produzidos, ou seja, em palavras aristotélicas, que a causa eficiente imprime na causa material a causa formal.

II. O que diferencia um ser de outro é a sua causa formal, pois é ela que apresenta as características específicas do ser, ou seja, é o princípio de individualização dos seres.



5. Política Aristotélica


Para Aristóteles, o homem é naturalmente um animal político, isto é, é um participante da pólis. Uma das condições essenciais do ser humano é o fato de viver agregado a outros homens. Em outras palavras, para esse filósofo, um indivíduo vivendo sozinho é inconcebível: um homem absolutamente solitário ou autossuficiente deixaria de ser homem – seria um deus ou uma fera, nas palavras de Aristóteles – ou simplesmente não sobreviveria.

Sobre a forma de governo ideal para a cidade, Aristóteles defenderá que cada sociedade deve ter uma forma de governo de acordo com sua natureza. Existem formas de políticas boas e ruins.



6. Ética Aristotélica





Uma das ideias mais importantes do pensamento aristotélico é em relação à vida do homem em sociedade. Para o estagirita, o homem nasceu para ser feliz e é esta a sua causa final, fim último de sua existência.

Para alcançar esta felicidade, o homem deve se empenhar em uma vida virtuosa, de prática daquilo que ele denomina virtudes éticas, que seriam as ações mais corretas e que levariam o homem a se tornar um bom cidadão.

Tais virtudes são alcançadas pelo pensamento em uma regra denominada de Justo meio ou Justa medida. O homem deve evitar os excessos e se dedicar ao equilíbrio na definição do que ele deve ou não fazer.


6. Os Filósofos Helenistas



Convencionou-se chamar o período que vai da morte de Aristóteles, em 322 a.C, até o final da Antiguidade, no séc. V, de Helenismo.

O Helenismo está ligado à figura de Alexandre Magno, ou Alexandre, o Grande, que assumiu o trono da Macedônia e iniciou uma série de conquistas que vieram a constituir um vasto império, o Império Macedônico, que incluía a Grécia, o Egito, a Pérsia e parte do território hoje ocupado pela Índia.

Essa conquista da Grécia pelos macedônios deu início ao período helenístico. Essa dominação se manteve por muito tempo após a morte de Alexandre, só encontrando seu fim com o desenvolvimento do poderio de Roma, que conquistou a Grécia no séc. I a.C. e teve término no séc. V d.C.

Esse período, que durou da primeira metade do séc. IV a.C. até o séc. V d.C. representou uma transformação radical na cultura grega, que se caracteriza pela interação da cultura grega com as culturas dos povos conquistados.

As consequências dessa dominação da Grécia constitui o fato mais importante com o qual se compreende toda a filosofia individualista do período helenístico. Com as invasões macedônicas, a pólis grega, principalmente Atenas, perde sua autonomia política, ou seja, a democracia não pode mais decidir livremente o futuro da cidade, tendo que se subordinar à dominação macedônica. Assim, o espaço público, que no passado era valorizado como o sinal de glória e liberdade, perde sua importância.

Essa perda do poder político, liberdade que fundamentava a própria vida e constituía a essência da vida da pólis, fez surgir novas correntes de pensamento, nas quais a reflexão sai da esfera pública (política) para a esfera privada (particular). Com essas mudanças, tem-se o surgimento de escolas filosóficas que se dedicaram à vida pessoal, formulando “filosofias de vida”, que têm o claro objetivo de preencher o vazio deixado pela perda do poder político, funcionando, dessa forma, como uma espécie de autoajuda.

Isso significa que, se antes a felicidade estava fundamentada na participação e na liberdade política, da coletividade, agora a felicidade, a eudaimonia, ganha um caráter individual e pessoal.

As quatro principais escolas filosóficas do período helenístico foram: o ceticismo ou pirronismo, estoicismo, cinismo e epicurismo.


a) Cinismo:




Os fundadores dessa escola filosófica foram Antístenes e Díogenes, o Cão. O pensamento cínico pregava que a maior virtude que um homem poderia atingir era a independência frente a todos os acontecimentos da vida. Isso significava libertar-se dos costumes e das normas sociais por meio da satisfação apenas das necessidades absolutamente vitais, como a alimentação e o sono. Todas as outras necessidades supérfluas são impostas pelas regras sociais e deveriam ser desprezadas.

Dessa forma, desprezavam as coisas materiais. Andavam como mendigos, vestiam trapos e não trabalhavam, sendo chamados também de “cães da sociedade”. A palavra cínico vem do grego Cynos, que significa cão.



b) Estoicismo





O estoicismo foi fundado pelo filósofo Zenão. A busca da felicidade foi o problema fundamental para ser estudado. A felicidade, para os estoicos, era um estado de tranquilidade plena, que só podia ser atingido por meio da prática virtuosa. Por sua vez, a virtude era definida como uma negação constante, que consistia na indiferença dirigida a todas as experiências da vida. O estado que seria atingido com essa prática é descrito pelo termo grego apatheia. Em outras palavras, o homem não deveria se preocupar com questões relacionadas à morte, não deveria se esforçar pelo enriquecimento material, nem deveria sofrer com o cansaço. O único valor, segundo os estoicos, é a sabedoria, que é alcançada com o cultivo do pensamento, que por sua vez é a única atividade em que vale a pena se empenhar.

Ser indiferente, ou seja, não sofrer nem agir por nenhuma paixão, era, para os estoicos, ser virtuoso. Dessa forma, o máximo da virtude seria alcançado quando o homem ficasse alheio a tudo, vivendo como que em uma fortaleza interior, tendo como seu tesouro o pensamento e a sabedoria filosófica.



c) Ceticismo:




O fundador dessa escola filosófica foi Pirro. Os céticos defendiam a ideia de que seria impossível conhecer verdadeiramente qualquer coisa. A filosofia deveria ser uma negação do saber, não uma busca. Segundo os céticos, portanto, para atingir a felicidade, o indivíduo deveria dirigir uma indiferença absoluta aos costumes e aos acontecimentos da vida. O homem feliz seria aquele que tivesse atingido o estado de ataraxia, palavra grega que designa a imperturbabilidade, não se importando com a verdade, uma vez que esta não existe.


d) Epicurismo:






Escola filosófica fundada por Epicuro defendia que a filosofia deve servir para libertar o homem do medo da morte, do destino e das divindades.

Epicuro afirmava que a alma seria composta de átomos. Com a morte, os átomos se dispersavam imediatamente e a alma se desfazia. Dessa forma, Epicuro sustentava a ideia de que não existia vida após a morte e, por isso, não havia motivo para se preocupar com ela, pois tudo acabaria com a morte. Além disso, todo o bem e todo o mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. Por isso não se deve temer a morte, pois, quando estamos vivos, é a morte que não está presente e, ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos.

Em relação aos deuses, Epicuro afirmava que existem diversos mundos e, no espaço entre eles, nos intermundos, os deuses viviam, completamente desinteressados pelos homens. Os deuses não se interessam pela vida humana, não interferindo em nada na mesma. Por esse motivo, os homens deveriam despreocupar-se com os deuses.

De acordo com o epicurismo, devemos nos despreocupar também com o destino, pois o futuro não é totalmente nosso e nem totalmente não nosso. Dessa forma, não seremos obrigados a esperá-lo como se estivesse por vir com toda certeza, nem nos desesperarmos como se não estivesse por vir jamais, vivendo de uma maneira melhor.

O epicurismo afirmava que a finalidade da vida é o prazer. Não um prazer obtido simplesmente por meio dos instintos e das paixões imediatas, mas sim pela razão: o verdadeiro prazer estaria em superar todos os desejos, não ter necessidade de nada supérfluo à vida e à existência. Segundo o filósofo, o grande bem está na independência em relação aos desejos, já que se não temos muito, passamos a nos satisfazer com o pouco, defendendo então uma vida simples e regrada.

A felicidade (paz espiritual, tranquilidade da alma, ataraxia) seria alcançada quando o homem atingisse o autodomínio, isto é, se libertasse de todos os medos e desejos, agindo somente segundo sua razão.


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