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Aula Escrita #9: Filosofia Moderna - Parte 2

Revisão de Filosofia em Texto e Imagens!






“Descartes e Bacon mostram-se como lados opostos da mesma moeda. Por um lado, Descartes aposta no uso exclusivo da Razão na obtenção de um conhecimento Universal e Necessário; por outro, Bacon acredita que as experiências trazidas pelas sensações são imprescindíveis para se iniciar qualquer processo de pensamento. Ainda que suas posições sejam antagônicas, seus objetivos são os mesmos. Ambos estão em busca de um conhecimento válido, ambos apostam na faculdade de raciocínio humano, portanto num espírito superior ao restante dos animais. Tanto Descartes como Bacon acreditam que este conhecimento válido pode ser encontrado por meio da criação de generalizações, de idéias que representam a realidade, de modelos que permitam seu fácil manuseio. Suas diferenças ficam por conta do método de como se atingir este tão almejado conhecimento sobre o mundo.”

Paula Langaro. Disponível em: http://desenvolvendoopensamentocritico.blogspot.com.br/2010/06/o-racionalismo-e-o-empirismo.html


1. Características Gerais





Com o processo de desencantamento do universo, a autoridade religiosa, gradativamente, foi perdendo seu poder e, necessariamente, suas respostas às questões sobre as verdades sobre o mundo, o homem e a sociedade deixaram de atender às expectativas daqueles que buscavam o conhecimento verdadeiro. Com o Renascimento, o antropocentrismo moderno, que coloca novamente o homem como o único responsável por encontrar as respostas sobre o universo a partir de suas características fundamentais, a saber, a razão e a liberdade, traz para o homem a responsabilidade de encontrar, por conta própria, tais verdades. Mas será que tudo o que o homem diz sobre o universo é verdade? Não. O conhecimento alcançado pelo homem pode ser falso. O fato do homem pensar por conta própria, sem recorrer a Deus, não garante que aquilo que é pensado é verdadeiro, ou seja, que corresponda à realidade do fato/objeto.


Para garantir o mínimo de incorreção no pensamento humano foi criado na modernidade o método científico. O que garante que aquilo que foi dito é verdade é o caminho, o método utilizado que levou às respostas. A palavra método vem do grego Methodos que significa meta: rumo / hodos: caminho. Desde o nascimento da filosofia com os pré- -socráticos, o problema sobre qual é o método que garante a verdade se torna urgente. Afinal, se o homem racional pretende encontrar a verdade, um dos problema mais sério da filosofia é encontrar este caminho que garante tal conhecimento da verdade.

2. Racionalismo X Empirismo.






Os dois caminhos ou teorias do conhecimento mais importantes, discutidos desde o inicio da filosofia, são o racionalismo e o empirismo. Estes temas voltam a ser discutidos na Modernidade. Vamos a eles:

I. Racionalismo



Doutrina que privilegia a razão dentre todas as faculdades humanas, considerando-a como fundamento de todo conhecimento possível. O racionalismo considera que o real é, em última análise, racional e que a razão é portanto capaz de conhecer o real e de chegar à verdade sobre a natureza das coisas. (...)

Dicionário básico de filosofia. Danilo Marcondes.



Os filósofos dos séculos XV a XVII se entusiasmam pela matemática (aritmética, álgebra e geometria), acreditando, então, que poderiam aplicar o método matemático, que é puramente racional, a todas as áreas de investigação, garantindo a exatidão e certeza dos conhecimentos alcançados. O que seria utilizado não seriam os números e os cálculos da matemática, mas sim o procedimento dedutivo, isto é, o modo da matemática de encadear as razões ou afirmações segundo certa ordem, levando a uma conclusão. Essa racionalidade se expressaria de modo geométrico, lógico, dedutivo, o que caracterizaria a visão específica do racionalismo moderno ou grande racionalismo.


II. Empirismo


Doutrina ou teoria do conhecimento segundo a qual todo conhecimento humano deriva, direta ou indiretamente, da experiência sensível externa ou interna. Nada se encontra no espírito que não tenha, antes, estado nos sentidos.”

Dicionário básico de filosofia. Danilo Marcondes


Frequentemente fala-se do “empírico” como daquilo que se refere à experiência, às sensações e às percepções, relativamente aos encadeamentos da razão. O empirismo, sobretudo de Locke e de Hume, demonstra que não há outra fonte do conhecimento senão a experiência e a sensação. As ideias só nascem de um enfraquecimento da sensação e não podem ser inatas. Daí o empirismo rejeitar todas as especulações racionalistas como vãs e impossíveis de circunscrever.



3. René Descartes (1596-1650)






Descartes é conhecido como o Pai do racionalismo moderno. Seu projeto filosófico é reerguer o edifício do saber, ou seja, elaborar um método que, apoiado unicamente na razão, seria capaz de construir uma ciência que pudesse alcançar a descoberta/ construção de verdades indubitáveis, ou seja, impossíveis de serem duvidadas. Sua crítica ao empirismo pode ser identificada, sobretudo na seguinte citação:


“Tomemos [...] este pedaço de cera que acaba de ser tirado da colmeia: ele não perdeu ainda a doçura do mel que continha, retém ainda algo do odor das flores de que foi recolhido; sua cor, sua figura, sua grandeza, são patentes; é duro, é frio, tocamo-lo e, se nele batermos, produzirá algum som. Enfim, todas as coisas que podem distintamente fazer conhecer um corpo encontram-se neste. Mas eis que, enquanto falo, é aproximado do fogo: o que nele restava de sabor exala-se, o odor se esvai, sua cor se modifica, sua figura se altera, sua grandeza aumenta, ele torna-se líquido, esquenta-se, mal o podemos tocar e, embora nele batamos, nenhum som produzirá. A mesma cera permanece após essa modificação? Cumpre confessar que permanece: e ninguém o pode negar. O que é, pois, que se conhecia deste pedaço de cera com tanta distinção? Certamente não pode ser nada de tudo o que notei nela por intermédio dos sentidos, visto que todas as coisas que se apresentavam ao paladar, ao olfato, ou à visão, ou ao tato, ou à audição, encontravam-se mudadas e, no entanto, a mesma cera permanece.”

DESCARTES, René. Meditações. Trad. De Jacó Guinsburg e Bento Prado Júnior.São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 272.


Descartes nasceu na França e estudou na melhor escola da Europa de seu tempo, o colégio de La Flèche onde aprendeu latim, grego, poesia, gramática, retórica, filosofia (metafísica, física, lógica, matemática e ética). Ao sair do colégio, entrou na universidade onde estudou ciências jurídicas. Após anos de estudo entra em uma crise intelectual uma vez que dentro de si surge a seguinte dúvida: como posso acreditar em todos os conhecimentos aprendidos ao longo de minha formação intelectual se todas as ideias que são apresentadas a mim, com exceção dos conhecimentos matemáticos, podem ser colocados em dúvida uma vez que para a mesma coisa ou objeto sempre tem-se duas ou mais ideias que pretendem ser verdadeiras? Tal crise se deve ao fato de Descartes ter tido uma aproximação muito grande com a matemática que, em seu tempo, desfrutava de avanços significativos. A matemática não pode aceitar imprecisão ou falsidades, ou seja, o que é verdadeiro não pode ser contestado, tal como 3+2=5. Disso não é possível duvidar em nenhuma hipótese. É esta garantia e certeza que Descartes acredita ser necessária para todo e qualquer conhecimento de todas as ciências. Dessa forma, Descartes vê na matemática o instrumento de verificação e garantia de toda e qualquer verdade, sendo a Metafísica a base sobre a qual se sustentariam todas as outras ciências. Ou seja, através de um método dedutivo-matemático, baseado exclusivamente na razão sem a interferência de nenhum dos cinco sentidos, o homem poderia alcançar as verdades em todas as ciências. A partir disso, o que o filósofo quer é alcançar a unificação do conhecimento a partir de uma ciência universal de base racional que ele denomina de Mathesis universalis (a matéria universal), a matemática, com a qual todo o conhecimento seria exato e incontestável, ou seja, que garanta verdades absolutas e universais ou verdades claras e distintas. Para alcançar essa certeza do conhecimento que só provem da matemática, ele adota em seu método o mesmo procedimento lógico-demonstrativo da geometria analítica (união entre geometria e álgebra): tendo dois ou três primeiros termos os demais são facilmente encontrados a partir de um raciocínio dedutivo. O grande e fundamental passo dado por Descartes foi o de rejeitar todo o conhecimento anterior a si mesmo, não confiando nas imprecisões da filosofia e da ciência, e tentar reerguer o edifício do saber. Ele rejeita todo o conhecimento anterior e quer buscar as novas bases sobre as quais possa reconstruir tal edifício.


a) A teoria das Ideias.




O homem é capaz de encontrar, pela matemática, ideias claras e evidentes sobre o mundo. Assim, as ciências podem dizer verdadeiramente o que é o mundo encontrando suas características quantitativas, sua essência geométrica, sua extensão (comprimento, largura e profundidade). As características qualitativas (cor, odor, sabor etc) não podem dizer o que a coisa é. Assim, além da res cogitans (coisa pensante) existe a res extensa (coisa extensa, o mundo fora da mente do homem)

Este mundo externo só pode ser conhecido pela matemática. Esta é o instrumento de acesso do homem ao mundo. Quando a razão, com clareza e distinção, pensa e alcança um conhecimento matemático sobre alguma coisa, sendo este conhecimento claro e evidente à mente, por meio do método, isto significa que o homem alcançou a verdade sobre tal coisa.


Em sua filosofia, Descartes promove a separação radical entre res cogitans e res extensa. A metafísica cartesiana inaugura uma concepção dualista da realidade: separa a realidade espiritual da realidade material, o que influencia todo pensamento e ciência elaborados depois dele, por exemplo, a psicologia e a medicina que entendem o homem não como um todo, mas como mente e corpo separados. Separação também entre sujeito (aquele que pensa) e objeto (o que é pensado): sujeito é o ordenador do conhecimento. O pensamento encontra em si os fundamentos que permitirão aceitar uma ideia como verdadeira.

Para a concepção aristotélico-tomista (REALISMO) tudo o que a mente representa já foi objeto da percepção (sentidos). O conhecimento vai das coisas, passando pelos sentidos, para o intelecto, onde se formam as ideias. Para Descartes (SUBJETIVISMO), o caminho é o inverso, isto é, o conhecimento vai das ideias da mente (razão) para as coisas. Quem determina a verdade é a ideia que o homem elabora na mente.


b) O Método Cartesiano



O caminho utilizado por Descartes para encontrar as novas verdades que serão utilizadas para o novo edifício do saber denomina-se método cartesiano. Tal método é constituído de 4 passos:

1. Regra da Evidência: só aceitar uma ideia se ela for clara e evidente à mente.

2. Regra Análise: dividir o problema em quantas partes for possível.

3. Regra da Síntese: reunir as partes começando das mais simples para as mais complexas.

4. Regra da Enumeração: fazer revisões de tempo em tempo para garantir que não se esqueceu de nada.


c) A dúvida metódica




Estabelecido o método, Descartes busca então uma verdade que seja clara e distinta e que sirva como base para o novo edifício do saber. Que verdade será está sobre a qual não possa haver qualquer resquício de dúvida? A única forma de verificar se uma ideia não pode ser duvidada é tentar coloca-la em dúvida. Dessa forma, tomando como caminho dos céticos, ou seja, a dúvida, coloca todas as coisas em dúvida a fim de alcançar uma só verdade que seja indubitável. Este método sistemático de dúvida é denominado a dúvida metódica, constituída de 3 passos:

1. Duvida de toda verdade obtida pelos 5 sentidos: se os sentidos já nos enganaram alguma vez, eles podem nos enganar sempre.

2. Duvida da própria realidade e de si mesmo: não há qualquer critério objetivo que possa distinguir o sonho da realidade.

3. A Dúvida hiperbólica. Duvida das verdades matemáticas: hipótese do Deus enganador e do “gênio maligno”. Mesmo as verdades matemáticas como 2+3=5 podem estar erradas se estivermos sendo enganados por um ser superior que queira nos enganar por algum motivo, afinal ele é poderoso e pode ser de sua vontade que os homens se enganem dessa forma. Aliás, esse ser todo-poderoso pode nos enganar coletivamente e nada garante que ele seja bom, mas pode ser um grande gênio maligno que engana toda a humanidade pelo simples prazer que tem em nos ver enganados.

c) Cogito




O resultado da dúvida metódica é a certeza do Cogito (pensar, pensamento): posso duvidar de tudo, mas não posso duvidar de que estou duvidando. Não importa se o que o homem pensa é verdadeiro ou falso, o que importa é que não há possibilidade de duvidar de que o homem pensa, e se ele pensa obviamente ele tem que existir para pensar. Neste momento, Descartes alcança a certeza do “Cogito, ergo sum”: penso, logo existo.

Neste momento Descartes alcança a 1ª verdade clara e distinta, indubitável, que servirá de base para o novo edifício do saber. O princípio do COGITO é uma verdade clara e distinta. Ele tem então a certeza de que é uma coisa pensante, um RES COGITANS, uma substância pensante. O ser pensante é mais real do que o mundo físico. O pensamento garante a existência da coisa.


Descartes sabe que possui ideias, mas estas poderiam ser fruto de sua imaginação e não corresponderem a nada fora de sua própria mente, ou seja, as ideias poderiam ser resultado de suas fantasias. É necessário encontrar uma ideia que não tenha origem no homem, mas que seja garantida sua verdade pelo fato de não poder ser uma fantasia humana. Teria alguma ideia em nossa mente que não tenha sido criado por nós mesmo? Descartes encontra a ideia de perfeição. Descartes não pode deixar de admitir que ele é imperfeito, mas em sua mente existe a ideia de perfeição ou de um ser perfeito, que é DEUS. Como um ser imperfeito não poderia pensar nada que vá além de sua condição de imperfeição, tal ideia não poderia vir dele, ou seja, do homem imperfeito, mas tem que ter origem em um ser que seja perfeito, pois só um ser perfeito pode elaborar uma ideia de perfeição, pois esta está de acordo com a sua natureza. Isso significa que Deus existe, pois se não existisse não poderia causar a ideia de perfeição que existe no homem. As ideias de Deus e de perfeição são inatas. Se Deus existe e é perfeito, ele não é enganador (Descartes elimina aqui a hipótese do gênio maligno), assim, as ideias matemáticas claras e evidentes não podem se constituir em erro, pois sendo Deus perfeito, ele não poderia deixar o homem se engane a tal ponto acreditando que uma verdade matemática exata, clara e distinta, encontrada pelo método correto, esteja errada.


4. Os Empiristas


O pensamento dos filósofos racionalistas do séc. XVII, como Descartes, expressou o ápice de alguns valores surgidos no Renascimento, como o papel central do homem no conhecimento do mundo e a valorização da razão como caminho fundamental para tal fim. Desse modo, observamos a busca por definir as essências, as substâncias, os princípios racionais dos seres por meio da matemática, instrumento puramente racional para o conhecimento. No final do séc. XVII a investigação filosófica tomaria outro rumo. Com a revolução industrial iniciada na Inglaterra, o foco se tornou mais as coisas práticas da vida cotidiana, a atividade do homem sobre a natureza em busca da transformação para o progresso. As discussões metafísicas cederam lugar para as coisas práticas, aos problemas concretos ligados ao conhecimento, à estrutura da mente. Neste momento, a teoria do conhecimento ou epistemologia passa a dar mais importância à experiência sensorial do que à razão.


a) David Hume (1711 – 1776)




Ao lado de Locke, Hume é um dos mais importantes pensadores do empirismo moderno. O objetivo de sua filosofia é investigar a origem das ideias, do conhecimento. É conhecido como empirista radical pelo fato de não aceitas a ideia de algo que não seja conhecido pelos sentidos. Não admite a ideia de que existe ou possa existir algo além daquilo que possa percebido pelos sentidos.



I. Impressões e Ideias





Hume faz uma distinção importante entre impressão e ideia. Impressões: percepções imediatas, feitas no “agora”. São mais vivas uma vez que é a experiência em si mesma feita no agora. Ideias ou pensamentos: mais fracas que as impressões. São cópias das impressões, das experiências. Constituem na recordação, na lembrança do que se experimentou pelos sentidos. Exemplo: dor (impressão) e lembrança da dor (ideia)


II. Método Crítico

Hume elabora um método, denominado de método crítico, como o objetivo de servir para descobrir as falsas ideias que o homem forma na sua mente, ou seja, de investigar se as ideias que possuímos realmente são fruto de experiências ou se são ideias formadas pela imaginação humana. Tal método consiste em decompor as ideias complexas em ideias simples e verificar quais são as impressões simples e as impressões complexas que foram a base para a formação de todas as ideias. Se não for possível encontrar as impressões que geraram a ideia isso significa que tal ideia é falsa, imaginária. Neste sentido podemos concluir que a ideia de Deus resulta de várias ideias simples que não nasceram de nenhuma impressão de Deus. O que ocorre é que o homem reúne em um ser superior as ideias nascidas da experiência de bondade, justiça, compaixão experimentada nas relações interpessoais. Portanto, tal ideia é falsa.



III. Associação de Ideias



Se a mente é um complexo constituído de inúmeras ideias simples e complexas, tais ideias se juntam e se separam de modo a criar outras ideias. Tais conexões são possíveis por 3 maneiras diferentes: 1. Semelhança: vê-se algo e pensa no que está retratado. Ex.: foto. 2. Contiguidade: ideias próximas. Uma ideia faz pensar em outra. Ex.: Branco e neve. 3. Causalidade: relação de causa e efeito. Uma ideia leva à outra. Ex.: ferimento e dor. Segundo Hume, de acordo com os objetos do conhecimento, ou seja, com aquilo que é investigado, que podem ser números, figuras, natureza, homem etc, a investigação humana deve buscar suas: 1 – relações de ideias: são os dados da matemática e da lógica e não dependem de nada existente. Seu conhecimento é certo e evidente uma vez que não há variação no conhecimento matemático. 2 – relação de fatos: são os dados obtidos por meio dos sentidos e não têm a mesma certeza das relações de ideias. É o resultado da associação de fatos e experiências. Não traz em si uma lógica, mas somente experiência.


IV. Hábito




As relações de fatos não apresentam entre si nenhuma relação de causalidade ou seja, não são causa e efeito. Por exemplo, o dia seguido da noite são apresenta nenhuma relação de causa e efeito, não sendo possível afirmar que um causa o outro, mas são apenas experiências de seres diferentes seguidas uma da outra. Desse modo, Hume defende que todas as experiências são particulares, e o fato de sempre serem vistas uma após a outra não permite concluir que elas tem alguma relação de causalidade. Assim, tal ideia não passa de uma ficção racionalista. As leis da natureza, baseadas nestas relações de causa e efeito não passam de hábitos, crenças nascidas da regularidade das coisas.


b) Francis Bacon (1561 -1621)



Como filósofo, Bacon destacou-se com uma obra onde a ciência era exaltada como benéfica para o homem. Em suas investigações, ocupou-se especialmente da metodologia científica e do empirismo, sendo muitas vezes chamado de "fundador da ciência moderna". Sua principal obra filosófica é o Novum Organum.

I. O método


O objetivo do método baconiano era constituir uma nova maneira de estudar os fenômenos naturais. Para Bacon, a descoberta de fatos verdadeiros não depende do raciocínio silogístico aristotélico, mas sim da observação e da experimentação regulada pelo raciocínio indutivo. O conhecimento verdadeiro é resultado da concordância e da variação dos fenômenos que, se devidamente observados, apresentam a causa real dos fenômenos.

Para isso, no entanto, deve-se descrever de modo pormenorizado os fatos observados para, em seguida, confrontá-los com três tábuas que disciplinarão o método indutivo: a tábua da presença (responsável pelo registro de presenças das formas que se investigam), a tábua de ausência (responsável pelo controle de situações nas quais as formas pesquisadas se revelam ausentes) e a tábua da comparação (responsável pelo registro das variações que as referidas formas manifestam). Com isso, seria possível eliminar causas que não se relacionam com o efeito ou com o fenômeno analisado e, pelo registro da presença e variações seria possível chegar à verdadeira causa de um fenômeno. Estas tábuas não apenas dão suporte ao método indutivo mas fazem uma distinção entre a experiência vaga (noções recolhidas ao acaso) e a experiência escriturada (observação metódica e passível de verificações empíricas). Mesmo que a indução fosse conhecida dos antigos, é com Bacon que ela ganha amplitude e eficácia.

II. A teoria do ídolos




No Novum Organum, Bacon preocupou-se inicialmente com a análise de falsas noções (ídolos) que se revelam responsáveis pelos erros cometidos pela ciência ou pelos homens que dizem fazer ciência. É um dos aspectos mais fascinantes e de interesse permanente na filosofia de Bacon. Esses ídolos foram classificados em quatro grupos:

1) Idola Tribus (ídolos da tribo): Ocorrem por conta das deficiências do próprio espírito humano e se revelam pela facilidade com que generalizamos com base nos casos favoráveis, omitindo os desfavoráveis. O homem é o padrão das coisas, faz com que todas as percepções dos sentidos e da mente sejam tomadas como verdade, sendo que pertencem apenas ao homem e não ao universo. Dizia que a mente se desfigura da realidade. São assim chamados porque são inerentes à natureza humana, à própria tribo ou raça humana.

2) Idola Specus (ídolos da caverna): De acordo com Bacon, cada pessoa possui sua própria caverna, que interpreta e distorce a luz particular, à qual estão acostumados. Isso quer dizer que, da mesma maneira presente na obra 'República' de Platão, os indivíduos, cada um, possui a sua crença, sua verdade particular, tida como única e indiscutível. Portanto, os ídolos da caverna perturbam o conhecimento, uma vez que mantêm o homem preso em preconceitos e singularidades.

3) Idola Fori (ídolos do foro): Segundo Bacon, os ídolos do foro são os mais perturbadores, já que estes alojam-se no intelecto graças ao pacto de palavras e de nomes. Para os teóricos matemáticos um modo de restaurar a ordem seria através das definições. Porém de acordo com a teoria baconiana, nem mesmo as definições poderiam remediar totalmente esse mal, tratando-se de coisas materiais e naturais posto que as próprias definições constam de palavras e as palavras engendram palavras. Percebe-se portanto, que as palavras possuem certo grau de distorção e erro, sendo que umas possuem maior distorção e erro que outras.

4) Idola Theatri (ídolos do teatro): Os ídolos do teatro têm suas causas nos sistemas filosóficos e em regras falseadas de demonstrações. Os falsos conceitos, são as ideologias, essas são produzidas por engendramentos filosóficos, teológicos, políticos e científicos, todos ilusórios. Os ídolos do teatro, para Bacon, eram os mais perigosos, porque, em sua época, predominava o princípio da autoridade – os livros da antiguidade e os livros sagrados eram considerados a fonte de todo o conhecimento.


c) John Locke ( 1632- 1704)




O objetivo da filosofia de Locke é investigar a origem, certeza e extensão do conhecimento humano, ou seja, verificar o limite do conhecimento humano. Como a mente funciona e como ela é capaz de conhecer?

I. A origem das Ideias





Um dos pontos mais importantes do pensamento empirista do séc. XVII é a crítica ao inatismo, ou seja, à teoria que diz existirem ideias inatas no homem. A base do empirismo é que as ideias nascem do conjunto de experiências particulares, ou seja, que a ideia é uma síntese de experiências que são nomeadas, sendo a mente um complexo de ideias e linguagem. Tal teoria é denominada de tabula rasa, ou seja, uma folha de papel em branco completamente desprovida de qualquer ideia. Tais ideias surgem a partir das experiências do homem

II. O Sentido Interno

A mente não é somente um agregado caótico de ideias sensoriais resultantes das experiências, mas a mente realiza certas operações com essas ideias, formando novas ideias. O responsável por estas operações é o sentido interno ou reflexão.

III. Ideias

As ideias simples são as ideias particulares de características individuais do ser. Exemplo: Pedra = fria, rígida, opaca e dura. Tais características são apreendidas diretamente pelos sentidos. São a matéria-prima do conhecimento As ideias complexas constituem a ideia do todo, do objeto ou do ser como um todo. Exemplo: Pedra, casa, livro etc. Tais ideias complexas são o resultado da união de várias ideias simples que em conjunto formam diversas ideias complexas.

IV. Conhecimentos

O conhecimento intuitivo é o conhecimento imediato, alcançado pelo uso direto dos sentidos que percebem a discordância das experiências dos seres. Exemplo: quente e frio. O conhecimento demonstrativo é mediato, isso significa que ele exige o raciocínio. Não é percebido e construído imediatamente. Exemplo: cálculos matemáticos para saber qual é a área de um campo de futebol.

V. Qualidades

Todas as coisas do mundo externo que serão conhecidas possuem características primárias e secundárias. As características primárias são as mais importantes. São a extensão, a figura, a solidez e o movimento dos seres. Tais características são quantitativas e correspondem à realidade do ser. Não variam de acordo com o sujeito conhecedor. As características secundárias são aquelas que podem variar de pessoa para pessoa. São a cor, o odor, o sabor dentre outras. São os dados obtidos através dos sentidos. São qualitativas. Não servem para conhecer o ser em si mesmo uma vez que podem variar de pessoa para pessoa.



1. Imannuel Kant ( 1724 -1804)



Um dos mais importantes pensadores da modernidade, Kant é o principal representante do Aufklärung, o Iluminismo alemão. Suas obras mais importante são a Crítica da razão prática onde investiga a questão moral e a Crítica da razão pura onde investiga o conhecimento. Desse modo, uma de suas maiores contribuições se resume em seu formidável texto ‘Resposta à pergunta: que é Esclarecimento?


“Esclarecimento (Aufklärung) é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento (Aufklärung). (...) Para este esclarecimento (Aufklärung) porém nada mais se exige senão LIBERDADE. E a mais inofensiva entre tudo aquilo que se possa chamar liberdade, a saber: a de fazer uso público de sua razão em todas as questões.”

KANT, I. Resposta à pergunta: que é .Esclarecimento.?. In: Textos Seletos. 2 ed. Trad. de Raimundo Vier. Petrópolis: Vozes, 1985, p. 103



a) A Revolução Copernicana do Pensamento




Quando Kant afirma a necessidade de colocar a razão diante de seu próprio tribunal ele realiza o que ficou conhecido como ‘A nova revolução copernicana do pensamento’. Nesta ele realiza uma mudança radical de perspectiva, uma alteração radical de pensamento, em que o homem deixa de olhar para fora de si, para os objetos do mundo, e volta-se para si mesmo, para sua razão, tentando responder às seguintes questões: como é possível conhecer e como se dá o conhecimento? Quais as ferramentas que o homem possui que permite conhecer o mundo? Nesta revolução Kant dirá que o homem tem ferramentas naturais que permitem que ele conheça o mundo. Dessa forma, não é mais o homem que deve se adaptar ao objeto para conhecê-lo, mas o contrário, ou seja, o objeto que deve se adaptar à capacidade que o homem tem de conhecer. Tais capacidades são exatamente essas ferramentas naturais. “Os objetos que têm de se regular pelo nosso conhecimento

b) O Criticismo Kantiano


A solução que o filósofo dá à questão do conhecimento, ou melhor, à epistemologia. Desde o início da filosofia um de suas questões mais importantes foi encontrar o caminho correto que levaria o homem ao conhecimento. Nesta discussão, os caminhos mais importantes foram o racionalismo e o empirismo. O racionalismo defende que a razão é o caminho para o conhecimento. O empirismo defende que são os cinco sentidos, a experiência. Para Kant, tanto os sentidos quanto a razão são determinantes para o conhecimento. Assim, pela 1ª vez na história do pensamento, ele consegue conciliar empirismo e racionalismo em uma única vertente: o criticismo. O criticismo kantiano ou apriorismo kantiano defenderá que o conhecimento começa com as EXPERIÊNCIAS e termina com a RAZÃO. Primeiro vem a experiência do objeto com os sentidos. Depois, os dados captados pelos sentidos são trazidos para a mente e são organizados pela razão, chegando então ao conhecimento. Nem só sentidos e nem só razão. Ambos são complementares no processo do conhecimento.

c) O Sujeito a priori.




Se o conhecimento é resultado da experiência seguida da razão, Kant se empenhará agora em uma investigação acerca das condições do homem de experimentar e pensar aquilo que experimentou para alcançar o conhecimento. Nessa investigação, sua busca é pelo Sujeito transcendental, ou seja, o que o homem puro, a priori (antes de experimentar qualquer coisa) tem em si e que lhe permite experimentar os objetos e também pensá-los para alcançar o conhecimento. Kant defenderá que o sujeito possui certas faculdades que são as causas de possibilidade da realização da experiências e do pensamento. Tais ferramentas são as formas da sensibilidade, aquelas ferramentas naturais que permitem a experiência, e as formas do entendimento, aqueles ferramentas naturais que permitem que ele pense.

d) As formas de sensibilidade

As formas da sensibilidade, ligadas à experiência, são o tempo e o espaço. Tais formas são as condições a priori de possibilidade da experiência sensível ou intuição empírica. São ferramentas humanas ou filtros que determinam como podemos perceber a realidade. Isso significa que o homem experimenta os objetos de acordo com o tempo e o espaço, ou seja, que os objetos se adéquam a uma noção temporal e espacial natural do homem e só assim tais experiências podem ocorrer.

e) As formas de entendimento

As formas do entendimento são as ferramentas naturais que pensam aquilo que foi experimentado pelos sentidos. São as 12 categorias, dentre as quais as mais importantes são a causa, a necessidade e a substância. Quando emitimos um juízo sobre algo ele é resultado de uma síntese efetuada pelo entendimento que unifica as várias representações que aparecem à sensibilidade. As formas do entendimento também pré- -existem no sujeito. São elas que dão ordem, organizam os dados dos sentidos. Ex.: crio uma conexão entre a chuva e o crescimento da vegetação: causa e efeito. Isto é uma operação mental promovida pela categoria a priori da causa. Assim, entender a natureza é projetar sobre ela as nossas formas próprias de conhecimento. A razão torna-se a grande legisladora do conhecimento da natureza.

f) A superação da metafisica tradicional




A metafísica tradicional se caracteriza pela busca da essência ou substancia dos seres. Kant rompe com essa ideia uma vez que o filó- sofo afirma que o homem não pode conhecer o mundo enquanto substância, essência pois se o conhecimento deriva da experiência e da razão tal essência não pode ser experimentada. A partir disso, Kant distingue dos seres o seu Noumeno que é a “coisa em si”, ou seja, sua essência, impossível de ser conhecida, do Fenô- meno, ou seja, a “coisa para nós”, que constituiria a aquilo que ser que pode ser conhecido pelo homem. O que o sujeito conhece dos seres não é o objeto em si mesmo, mas o objeto como se apresenta para o homem. A Critica de Kant à metafísica é que ela pretende conhecer a “coisa em si” e tal pretensão é o uso ilegítimo da razão. Qualquer estudo que pretenda dizer o que é a coisa em si mesma produz antinomias, leis ou ideias que podem ser defendidas e refutadas ao mesmo tempo.

g) A ética kantiana





O homem possui uma razão prática que procura responder às questões descartadas pela razão pura. Se a razão pura dedica-se ao conhecimento científico, a razão prática dedica-se à vida prática do homem, às suas ações, ao seu dia-a-dia. Tal razão está no campo da moral e da religião e afirma coisas que não podem ser provadas, mas são fundamentais e ajudam na vida cotidiana do homem e da sociedade. Tal razão prática busca encontrar os postulados práticos, os princípios morais fundamentais e universais necessários à vida em sociedade.

A ética kantiana é uma das mais importantes heranças de sua filosofia para a história. Ela se preocupa em pensar quais são as leis morais necessárias e universais que devem determinar as ações dos homens. Isto é, para o filósofo, não há relativismo em relação ao certo e errado, mas há sim leis morais universais que não estão à mercê de situações pessoais, nem tampouco de interesses ou qualquer outra especificidade, mas que são únicas e derivam da própria razão humana. Tais leis universais, chamadas por Kant de leis morais e que determinam as ações por Dever são encontradas pela razão quando esta utiliza uma espécie de ‘fórmula’ denominada de imperativo categórico que diz “Age apenas segundo aquelas máximas através das quais possas, ao mesmo tempo, querer que elas se transformem em uma lei geral”. Assim, a ação moral é encontrada pelo homem individual em suas situações específicas na medida em que ele, aplicando o imperativo categórico, reflete se na situação em questão o princípio que irá fundamentar sua ação pode ser utilizado por todos os homens no mundo e que isso levaria à melhora da humanidade. Para Kant, liberdade e dever caminham juntos uma vez que a forma mais sublime da liberdade é quando o homem obedece à sua própria razão. A ação correta é ação por dever.



6. Utilitarismo. Oposição à Ética Kantiana.



Segundo o dicionário básico de filosofia, podemos definir o Utilitarismo como:


uma doutrina ética defendida principalmente por Jeremy Bentham e John Stuart Mill que afirma que as ações são boas quando tendem a promover a felicidade e más quando tendem a promover o oposto da felicidade Filosoficamente, pode-se resumir a doutrina utilitarista pela frase: Agir sempre de forma a produzir a maior quantidade de bem-estar (Princípio do bem-estar máximo

Hilton Japiassú, Danilo Marcondes (1993). 'Dicionário básico de filosofia, Zahar. p. 273.


a) Os princípios fundamentais do Utilitarismo






Cinco são os princípios fundamentais da teoria utilitarista.

I. Princípio do bem-estar.

O “bem” é definido como sendo o bem-estar. Diz-se que o objetivo pesquisado em toda ação moral se constitui pelo bem-estar (físico, moral, intelectual).

II. Consequencialismo

As consequências de uma ação são a única base permanente para julgar a moralidade desta ação. O utilitarismo não se interessa desta forma pelos agentes morais, mas pelas ações – as qualidades morais do agente não interferem no “cálculo” da moralidade de uma ação, sendo então indiferente se o agente é generoso, interessado ou sádico, pois são as consequências do ato que são morais. Há uma dissociação entre a causa (o agente) e as consequências do ato. Assim, para o utilitarismo, dentro de circunstâncias diferentes um mesmo ato pode ser moral ou imoral, dependendo se suas conseqüências são boas ou más.

III. Princípio da agregação

O que é levado em conta no cálculo é o saldo líquido (de bem-estar, numa ocorrência) de todos os indivíduos afetados pela ação, independentemente da distribuição deste saldo. O que conta é a quantidade global de bem-estar produzida, qualquer que seja a repartição desta quantidade. Sendo assim, é considerado válido sacrificar uma minoria, cujo bem-estar será diminuído, a fim de aumentar o bem-estar geral. Esta possibilidade de sacrifício se baseia na ideia de compensação: a desgraça de uns é compensada pelo bem-estar dos outros. Se o saldo de compensação for positivo, a ação é julgada moralmente boa. O aspecto dito sacrificial é um dos mais criticados pelos adversários do utilitarismo.

IV. Princípio de otimização

O utilitarismo exige a maximização do bem-estar geral, o que não se apresenta como algo facultativo, mas sim como um dever.

V. Imparcialidade e universalismo

Os prazeres e sofrimentos são considerados da mesma importância, quaisquer que sejam os indivíduos afetados. O bem-estar de cada um tem o mesmo peso dentro do cálculo do bem-estar geral.

Este princípio é compatível com a possibilidade de sacrifício. A princípio, todos têm o mesmo peso, e não se privilegia ou se prejudica ninguém – a felicidade de um rei ou de um cidadão comum são levadas em conta da mesma maneira. O aspecto universalista consiste numa atribuição de valores do bem-estar que é independente das culturas ou das particularidades regionais. Como o universalismo de Kant, o utilitarismo pretende definir uma moral que valha universalmente.




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